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  • Seminário Nossa Senhora das Dores

São João da Cruz e a noite que se fez luz

Alguns pensadores descrevem o fenômeno místico como um ato de resistência, isso quer dizer que o contato com o Mistério conduz o místico a se contrapor ao que não mais aproxima as pessoas de Deus. Em 1567 ocorreu um dos maiores encontros da espiritualidade: o de Teresa de Jesus com frei João de São Matias. Ambos partilhavam o desejo de uma maior união com Deus pelo seguimento radical da regra Carmelita. Santa Teresa realizou o processo de Reforma entre as irmãs e, em 1568, São João, agora frei João da Cruz, realizou a Reforma entre os frades. Ao afirmar ter encontrado “um homem celestial e divino” (Carta 269), Santa Teresa já predizia a profundidade e beleza da mística do Doutor místico.

A Reforma encontrou barreiras e São João da Cruz adentou sua “noite escura”. Em dezembro de 1577, os frades que não aderiram à Reforma conduziram frei João ao cárcere conventual de Toledo, uma cela pequena, sem janelas, com pequenos espaços de ventilação. No isolamento, São João da Cruz, imitando profundamente o Cristo, suportou tudo com paciência e silêncio, conforme o próprio testemunho do carcereiro. Foi no cárcere que o Doutor Místico escreveu suas mais belas poesias, como Cântico espiritual. É na noite escura, no abandono espiritual que São João da Cruz encontrou no seu íntimo a força e a luz. Encontrando o Amado no seu interior e deixando-se encontrar por Ele, na ação e na passividade, Frei João fez de sua doutrina não um aniquilamento total do humano, mas uma profunda transformação do sofrimento, da noite em luz, uma união da vontade humana com a divina e uma união total com o Amado, o matrimônio espiritual.

É nessa relação entre aspectos ativos e passivos que João da Cruz desenvolve sua profunda teologia espiritual. Aclamado como doutor da Igreja em 1926 e conhecido como Doutor Místico, São João nos ensina a transformar o sofrimento em encontro transformador com o Amado, a olhar para o interior e se manter constantemente enamorado por Deus. É com a purificação dos sentidos e do espírito que o Doutor místico nos mostra que a presença de Deus nos torna mais humanos e olhando para os nossos dias, nos permite “esperançar-nos” dentro de uma longa noite escura, não nos apegando negativamente ao sofrimento, mas acreditando que o Senhor está conosco.

Neste dia 14 de dezembro, dia em que São João da Cruz realizou seu encontro definitivo com o Amado em 1591, é louvável manter no pensamento, nos lábios e no coração a sua Suma de perfeição: “Esquecimento da criação, lembrança do Criador; atenção ao interior; e estar amando o Amado”. (Poesias 13, II)


Iuri de Carvalho Santos

3° Ano da Etapa do Discipulado - Filosofia