A ETAPA PROPEDÊUTICA DA FORMAÇÃO PRESBITERAL

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Foi durante o pontificado de S. João Paulo II, nos idos anos 1980, que o germe do que seria a etapa propedêutica começou a ser formado, no seio da Igreja. Desde esse período, a Congregação para a Educação Católica, então responsável pelos Seminários do mundo todo, defendeu a existência de um período de vivência comunitária com vistas à preparação humana, espiritual e intelectual dos vocacionados ao Seminário Maior.

Como era de se esperar, na VIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em 1990, na qual se tratou do tema da formação dos sacerdotes nas circunstâncias atuais, os padres sinodais postularam a necessidade de se organizar o Propedêutico nos Seminários do mundo todo. E Sua Santidade, S. João Paulo II, sensível às moções do Espírito Santo, ao promulgar a Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores Dabo Vobis em 25 de março de 1992, propôs o seguinte:

 

A finalidade e a configuração educativa do Seminário Maior exige que os candidatos ao sacerdócio entrem aí já com alguma preparação prévia. Tal preparação não colocava problemas particulares, pelo menos até alguns decênios atrás, no tempo em que os candidatos ao sacerdócio provinham habitualmente dos seminários menores e a vida cristã das comunidades oferecia facilmente a todos, indistintamente, uma discreta instrução e educação cristã. A situação, em muitas partes, está alterada. Verifica-se uma forte discrepância entre o estilo de vida e a preparação de base das crianças, dos adolescentes e jovens, mesmo que cristãos e por vezes comprometidos na vida da Igreja, por um lado, e, por outro, o estilo de vida do seminário e as suas exigências formativas. Neste contexto e em comunhão com os Padres sinodais, peço que haja um período adequado de preparação que preceda a formação do Seminário.” (PDV, n. 62).

 

Dessa forma, essa exortação ampliou os horizontes da formação sacerdotal na Igreja, incrementando o decreto Optatam Totius (1965), as versões anteriores da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis (1970 e 1985) e o Código de Direito Canônico (1983).

           

Nas atuais diretrizes da Santa Sé para a formação presbiteral (Ratio Fundamentalis de 2016), o Propedêutico é entendido como a etapa primeira da formação inicial, momento do “encantamento” com o Cristo Bom Pastor, que chama os vocacionados a trilhar o caminho de discipulado e configuração a Ele. Segundo a nova Ratio, trata-se de:

 

“... uma etapa formativa indispensável, com uma especificidade própria. O objetivo principal consiste em assentar sólidas bases para a vida espiritual e favorecer um maior conhecimento de si para o crescimento pessoal. [...] Além disso, este é um tempo propício para um conhecimento inicial e sumário da doutrina cristã, [...] e para o desenvolvimento da dinâmica do dom de si na experiência paroquial e caritativa. Por fim, a fase propedêutica poderá ainda ser útil para um eventual complemento da formação cultural [dos candidatos].” (RFIS, n. 59).

 

Assim sendo, de acordo com a Congregação para o Clero, a etapa propedêutica é “... um verdadeiro tempo de discernimento vocacional, levado a cabo no seio de uma vida comunitária, e no âmbito de uma ‘preparação’ para as etapas sucessivas da formação inicial” (RFIS, n. 60).

Consecutivamente, nas novas Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil (Doc. 110 da CNBB), promulgadas em 2018, os bispos brasileiros destacam que, dentro das suas especificidades próprias, a etapa propedêutica precisa ser “... eminentemente querigmática, caracterizada pelo encontro com Cristo” (Doc. 110 da CNBB, n. 125). Além disso, o documento ressalta:

 

“Esta etapa, obrigatória para todos os candidatos do Seminário Maior, é organizada como uma instituição autônoma, distinta e articulada com as outras etapas da formação, levando em consideração as seguintes indicações: residência ou local próprio, com programação específica; não inferior a um ano, nem superior a dois anos; com uma equipe responsável, valorizando a presença de leigos, homens e mulheres. O propedêutico deve se caracterizar como etapa da complementação e aprofundamento do processo de Iniciação à Vida Cristã e preparação de caráter introdutório com vistas à sucessiva formação presbiteral ou, ao invés, da decisão de trilhar outro caminho de vida.” (Doc. 110 da CNBB, n. 125).

 

Portanto, a etapa propedêutica, constituída por uma comunidade formativa própria, é um ambiente saudável e um tempo frutuoso para o crescimento de todos os seminaristas nas dimensões da formação presbiteral (humano-afetiva, espiritual, intelectual e pastoral). Auxiliados por seus formadores, eles poderão se preparar bem para as sucessivas etapas do Seminário, como autênticos discípulos de Jesus Cristo, configurando-se ao Bom Pastor que “dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11b).

 

 

Pe. Wendel de Oliveira Rezende

Até julho de 2020, Reitor da Comunidade Propedêutica S. Pio X