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  • Seminário Nossa Senhora das Dores

Assunção de Maria: “as portas do paraíso acolhem a terra portadora de Deus”


“Começa hoje para Maria uma segunda existência, recebida daquele que a fez nascer para a primeira, como também ela mesma dera uma segunda existência – a vida corpórea – àquele, cuja primeira existência, a eterna, não teve começo no tempo, embora principiada no Pai como em sua divina causa.” (São João Damasceno, III Homilia sobre a dormição da Mãe Santíssima de Deus).

Com essa locução de João Damasceno, somos convidados a refletir sobre este dogma, que é mistério, onde se percebe como a encarnação de Jesus nos toca e sua ressurreição se manifesta não como promessa, mas como realidade já alcançada. Deparar-se com o mistério é entrar em contato com divino que pode ser alcançado, mas nunca esgotado. A encarnação de Jesus e a assunção de Maria nos mostram que a chave de acesso ao divino não está na anulação de nossa humanidade, mas na sua vivência autêntica e real. Essa afirmação remete a um dos títulos antigos de Maria, na Igreja siríaca, que lhe atribui a função de tecelã, ou seja, aquela que tem nas mãos o novelo de lã que tece o corpo do Verbo, sua humanidade.

A liturgia dessa solenidade, no livro do Apocalipse, descreve uma mulher, que em meio às dores, gera vida. Esse sinal grandioso pode representar Maria e a Igreja que gestam e geram a nova humanidade, renovada pela Encarnação, resgatada pela Paixão e transformada pela Ressurreição de Cristo. Já a primeira carta de Paulo aos Coríntios apresenta uma forma de genealogia da Ressurreição, mostrando que Cristo é o princípio de uma nova humanidade e é Ele o primeiro a viver essa realidade. Debruçar-se sobre as palavras do Apóstolo na solenidade da Assunção é compreender que esse mistério é uma forma privilegiada de ressurreição, é afirmar que a nova humanidade, o que esperamos com a ressurreição da carne, já se realizou em Maria.

Lucas relata o episódio que lemos nessa solenidade da visita de Maria a Isabel. Chama a atenção o fato de João Batista, no ventre de Isabel, saltar de alegria com a voz de Maria. Esse saltar de alegria aparece naqueles que são chamados de bem-aventurados (Lc 6,23) e também no Antigo Testamento, quando descreve Davi dançando de alegria diante da Arca da Aliança que retornara para a pátria (2Sm 6, 16). O saltar e dançar de alegria acontece nesses relatos pela certeza da proximidade redentora de Deus, expressa nos antigos pela Arca da Aliança e em Maria pelo Verbo que se fez Homem. Pela Encarnação, expressa na visitação, Maria fez Cristo próximo à humanidade, ela, que é a escada espiritual pela qual o Verbo, desceu, se tornou a terra portadora de Deus, e hoje, na sua Assunção, sobe aos céus.

Celebrar a solenidade da Assunção de Maria é celebrar a nova humanidade já acolhida diante de Deus, o mistério escatológico reservado a todos aqueles que se fizeram renascidos em Cristos e abertos a sua graça. A Assunção reafirma o que se celebra no batismo, que toda morte foi engolida pela vitória de Cristo, e mostra que a certeza da salvação não é mais promessa e sim realidade; a Igreja já é redimida, o novo Israel não é mais rejeitado. Que possamos viver intensamente a nossa humanidade renovada por Cristo, anunciando-O e levando-O através de nossa presença, para escutar o que João Damasceno colocou em sua boca ao acolher Maria: “vem, á formosa, ó bem-amada, mais resplandecente pela virgindade do que o sol, tu me partilhaste teus bens, vem agora gozar junto de mim o que te pertence!”


Iuri de Carvalho Santos – I ano da Etapa Configurativa (Teologia)


Arte: Mosaico da Virgem Maria da Anunciação, Capela Beata Maria Ana das Irmãs Hospitalares de Madrid, Espanha

Marko Ivan Rupnik