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  • Seminário Nossa Senhora das Dores

FRANCISCO DE ASSIS, FRANCISCO DE TODO O MUNDO

Bem-aventurados os pobres no espírito,

pois deles é o Reino dos céus. Mt 5,3


A história humana é marcada por um antes e um depois de Cristo. De fato, o nascimento de Jesus de Nazaré representa, para os cristãos, o termo de uma era de pecado e tristeza e o princípio de um novo tempo, o tempo da graça e da salvação. Ora, o Filho de Maria, sendo também Filho de Deus e descendente de Davi (Mt 1,1) era dotado de uma dupla realeza: a realeza divina – por ter sido gerado pelo Pai desde antes de todos os séculos – e a realeza temporal – por ser da estirpe do Profeta Rei.

Ele, no entanto, não fez de sua condição divina e real uma usurpação, mas assumiu a condição de servo de todos (Fl 2,6-7), a tal ponto de fazer da manjedoura daquela estrebaria de Belém o seu berço e regaço primordial (Lc 2,7). O Verbo por meio do qual Deus operou a criação do mundo (Jo 1,3), durante sua peregrinação terrena, exaltou as aves do céu e as raposas por terem, respectivamente, seus ninhos e suas tocas, enquanto Ele não dispunha sequer de um canto onde pudesse reclinar a cabeça (Mt 8,20).

Deus se fez pobre e, com isso, ressignificou a pobreza, mostrando-nos que sua opção preferencial era por aqueles que nada tinham. Dois mil anos se passaram, mas a opção preferencial da Igreja continua a mesma: embora seja cristocêntrica, ela continua elegendo prioritariamente os pobres e fracos, os humildes e simples, os abandonados e oprimidos, fazendo deles um lugar teológico, uma instância sacramental.

Compreender isso é necessário, é urgente. Em um mundo polarizado, dividido e fragmentado, onde o capitalismo e o neoliberalismo voraz prescindem de toda uma tradição social do ethos e, sobretudo, olvida da primeira bem-aventurança anunciada pelo Cristo (Mt 5,3), defender os pobres e marginalizados é sinônimo de “comunismo”, pregar a fraternidade e a partilha é sinal de “socialismo”: em última instância, são coisas a serem perseguidas, derrotadas, extirpadas – cruel apanágio daqueles que têm muito.

“Os pobres sempre existiram”, “o mendigo pede esmola porque não quer trabalhar”, “o desempregado está ‘à toa’ porque fica ‘escolhendo’ serviço”... Essas frases são frequentes, porém são também falaciosas, impregnadas de violência, maldade e indiferença. De fato, os pobres sempre existiram, mas porque uma minoria retém para si os recursos primordiais de uma sociedade, buscando a todo custo a manutenção de um status quo; a mendicância existe, mas devido ao fato de que o assistencialismo barato promovido por tantas instituições – inclusive pela Igreja, muitas vezes – não promove a vida e a dignidade humana; enfim, o desemprego não se dá por vaidade do trabalhador, mas pelas tantas crises econômicas, políticas e sociais de um sistema globalizado e tecnicista em vertigem. Mas é em tempos de crise existencial que os grandes profetas e arautos da esperança surgem, qual luzeiro em meio às trevas, aclarando os corações esmagados pela incerteza e pelo desespero.

Francisco de Assis é um dentre tantos homens e mulheres que gastaram suas vidas tentando mostrar que a humanidade tem jeito: basta acreditar, agradecer e esperançar. O Santo italiano nasceu em 1182, filho de um rico comerciante de tecidos. Recebendo, na infância, uma sólida instrução acadêmica, o pequeno Francesco crescia com uma única obsessão: tornar-se rico. Mas, das muitas fábulas que iluminam a biografia do Santo, uma delas conta que, em 1206, enquanto rezava na Capela de São Damião, em Assis, Francisco ouviu do Senhor o seguinte imperativo: “Vá, Francisco, e reconstrói a minha Igreja!”.

Pensando que se tratava de uma restauração daquela igreja em ruínas, o santo volta para a casa, vende boa parte de seus bens e coloca sua fortuna a serviço de Deus e dos miseráveis, cumprindo aquilo que o jovem rico do Evangelho não fora capaz de realizar (Mc 10,17-22). Mas é só em 1208 que Francisco tomará consciência de que a reforma que Deus lhe pedia era muito maior e mais complexa do que a reconstrução um templo de pedra. O Senhor queria que Francisco restaurasse a dignidade do seu Povo, apontasse um novo caminho para a sua instituição eclesial – dominada naquele tempo (e ainda agora!) pela vaidade e pela corrupção moral. Por isso, o Santo de Assis funda uma ordem mendicante, que anos depois levaria seu nome, professando perpetuamente os votos de castidade, pobreza e obediência.

A vida de São Francisco é, mesmo depois de tanto tempo, um sinal profético de esperança e paz. O Santo compreendeu perfeitamente o que significa o amor, a caridade, a partilha, a fraternidade e a doação total. Hoje, novamente, Francisco é chamado a dirigir a Igreja de Cristo. Mas, dessa vez, o Senhor não foi a Assis chamar seu eleito. Ele veio bem perto, até a Argentina, e tomou pelas mãos o arcebispo de Buenos Aires, fazendo-o assentar-se à Cátedra de Pedro para ser bispo do mundo inteiro. Rezemos a São Francisco, pedindo-lhe que nos ensine a viver a alegria do Evangelho, bem como a fraternidade e a amizade social. E, com ele, convidemos todo o universo, tudo o que vive e respira (Sl 150,5), a louvar o Criador pelas maravilhas de sua misericórdia.

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.

São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas.


Rafael Rodrigues Barbosa - 3ºda Etapa do Discipulado - Filosofia