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  • Seminário Nossa Senhora das Dores

“Se não faço as obras de meu Pai, não creiais em mim” (Jo 10, 37)




Da mesma forma que a vida natural passa por determinadas situações que a impulsiona ao amadurecimento, ao autoconhecimento e a integração, a vida espiritual também, inserida nesse contexto de temporalidade, passa por processos de amadurecimento e integração, evidenciando que o sujeito tende à vida eterna, à união íntima com o Criador. O Tempo Pascal possibilita essa dinâmica e percepção do amadurecimento e do processo, mostra a vida como êxodo, passagem, caminho para vida eterna e plena pela renovação, pela Ressurreição. A Páscoa de Jesus recorda que Ele ressignificou a dor e o sofrimento em vida nova, em luz na noite escura. Isso se dá, além do encontro pessoal, com o encontro comunitário, pois é na comunidade que Tomé reconhece o Ressuscitado. É no caminhar com Ele e no partir o Pão que se supera as dificuldades em reconhecê-Lo, tão comuns a todos nós, porque Ele, Jesus, é o Bom Pastor que nos conduz e auxilia na caminhada.

No 5º Domingo da Páscoa a Igreja nos provoca a prensarmos nossa união com Cristo ao mostrá-Lo como videira verdadeira (Jo 15, 1). A imagem da videira não é nova, Israel já é apresentada nos salmos e nos profetas como a videira do Senhor, porém, não produziu os frutos almejados nos sonhos de Deus. Por isso Jesus vai além, Ele é a videira, e videira verdadeira que veio para dar os frutos de amor que o Pai sonhou para toda humanidade. Ao se apresentar como videira, Jesus quis precisar de nós chamando-nos de ramos. Ele é a videira verdadeira, o tronco forte cultivado pelo Pai e nós os ramos por onde a seiva da graça divina corre e gera frutos. Só é possível dar frutos, ser fértil, enxertado em Jesus e cultivado, limpado, purificado em conversão pelo Pai Agricultor. O verbo passivo aqui não é por acaso, a graça de Deus e a redenção é gratuita, chega-nos passivamente e nós, em acolhida sincera, resplandecemos esse amor de Deus em todos e para todos. É atentar-se ao olhar vertical da fé, olhando para o céu, mas sem esquecer o olhar horizontal aonde o cristão gera frutos no mundo.

O verbo permanecer, tão enfatizado, mostra essa realidade. A união com Cristo é resultado de um processo de adesão verdadeira e generosa ao projeto do Agricultor celeste que cultiva, mas também semeia. Essa semeadura e frutificação apresentam-se na vivência comunitária. Saulo, na primeira leitura, enfrenta dificuldades no anúncio e na acolhida, estas superadas pelo esforço de integração tanto de sua parte como de toda comunidade (At 9, 26-31). Isso é sinal de união com a videira verdadeira, ou seja, o esforço e o desejo de se integrar radicalmente a Cristo e ao seu Corpo.

Resta-nos questionar sempre: como saber se estou unido ou não a Cristo Videira? São João, em sua carta, nos indica o caminho: a fé e o amor em obras. Nosso coração, por vezes ferido e maltratado pela culpa e pelo medo, corre o risco de se deixar reduzir em pecados de desunião já superados. Deus sabe mais de nosso coração (1Jo 3, 20) e vê a disponibilidade e o esforço de se integrar a Ele e à comunidade. É através da fé e das obras que manifestaremos essa união com Cristo e continuaremos a estender os ramos dessa videira. Quando deixamos as obras do Pai pelas do nosso ego, da nossa vaidade, não sonhando os sonhos de Deus, perdemos a credibilidade do anúncio, mostrando mais a nós do que a Deus. Só praticando as obras do amor, inspirados pela fé, é que se tem a certeza dessa união com o Cristo e de que sua vida, como seiva pura, circula e transparece em nós.


Iuri de Carvalho Santos – I Ano da Etapa Configurativa (Teologia)